Guerra no Irão: o que aconteceu aos BRICS?

17 de maio 2026 - 17:45

A guerra do Irão revelou as linhas de fratura geopolíticas que atravessam os BRICS “alargados”. O grupo dividiu-se em três categorias de posicionamento.

por

François Polet 

PARTILHAR
Reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos BRICS na India
Reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos BRICS na India. Foto do MNE indiano.

“Os BRICS devem agir para pôr fim imediatamente à agressão israelo-americana contra o Irão!”, afirmou o presidente iraniano ao primeiro-ministro indiano três semanas após o início das hostilidades (Hindustan Times, 21/03/2026). A Índia detém, de facto, a presidência rotativa desta aliança em ascensão de países emergentes, cuja expansão para dez membros em 2024, e depois para onze em 2025, tinha sido considerada por muitos observadores como um momento decisivo na história das relações internacionais.

Representando agora metade da humanidade e 40% do PIB mundial, os BRICS pareciam estar em condições de influenciar os equilíbrios de poder de uma ordem mundial enviesada a favor do Ocidente. Seria, portanto, de esperar que a aliança acorresse diplomaticamente em socorro de um dos seus membros, o Irão, alvo de uma ofensiva militar fora de qualquer quadro legal e com repercussões gravemente desestabilizadoras nas economias do Sul global.

E, no entanto, nada. Silêncio total, ou quase. A reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros do grupo, a 24 de abril em Nova Deli, não resultou em qualquer comunicado. “Não foi possível chegar a um consenso sobre este conflito específico”, precisou o anfitrião indiano. Um silêncio tanto mais notável quanto a campanha de bombardeamentos anterior contra o Irão, em junho de 2025, tinha, por sua vez, dado origem a uma condenação conjunta dos BRICS no mês seguinte. E por uma boa razão: no que diz respeito à guerra atual, dois outros países membros – os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita – são alvo de ataques de retaliação do Irão, sob o pretexto de que abrigam bases militares estadunidenses. É impossível, para esses países, endossar uma declaração que condenasse Israel e os Estados Unidos e poupasse o país que os bombardeia.

Três categorias de posicionamento

De forma mais geral, a guerra do Irão revelou as linhas de fratura geopolíticas que atravessam os BRICS “alargados”. O grupo dividiu-se em três categorias de posicionamento. Quatro países condenaram apenas o ataque israelo-americano: o Irão, a Rússia, a China e o Brasil. Um número equivalente de membros condenou apenas a resposta iraniana: os Emirados, a Arábia Saudita, o Egito (hiperdependente financeiramente dos dois primeiros), mas também a Índia. A parcialidade de Narendra Modi, não assumida por estar em flagrante contradição com a tradição indiana de não alinhamento, insere-se numa trajetória de aproximação estratégica com os Estados Unidos (contrariada pelo regresso de Trump) e, mais recentemente, com Israel, justificada pela sua dupla rivalidade com a China e o Paquistão.

Por fim, três países dedicam-se a um jogo de equilibrismo (balancing act), não condenando formalmente nenhum dos dois campos: a Indonésia, a África do Sul e a Etiópia. A ausência de denúncias dos bombardeamentos israelo-americanos é, no entanto, considerada por muitos na Indonésia, o outro grande país do movimento de não alinhamento, como um desvio em relação à política externa “livre e independente” do país – causado pela lealdade do presidente Prabowo Subianto a Trump e Netanyahu, ilustrada, entre outras coisas, pela presença inicial da Indonésia no Conselho de Paz de Trump.

Por seu lado, a África do Sul, aliada tradicional do Irão e historicamente na vanguarda das críticas a Israel, condenou “as violações do direito internacional” desde o primeiro dia da guerra, mas a sua declaração começa com um apelo ao diálogo e não menciona nem os Estados Unidos nem Israel. Por fim, a Etiópia, que mantém relações cruciais com todos os beligerantes, nomeadamente no que diz respeito à sua prioridade estratégica de acesso ao Mar Vermelho, limita-se a uma linguagem geral e mantém uma comunicação aberta com todas as partes.

Um fórum entre outros

As divergências de interesses em matéria de segurança entre os países membros impedem, portanto, que os BRICS se expressem a uma só voz na crise do Médio Oriente. O agrupamento não serviu nem de plataforma de denúncia do imperialismo ocidental, nem de mecanismo de segurança coletiva, nem de fórum para a busca de uma solução entre as partes em guerra. Vários dos seus membros – Arábia Saudita, Egito e China – desempenharam, no entanto, um papel decisivo nas reuniões que impulsionaram o Paquistão como mediador das negociações entre os Estados Unidos e o Irão… para grande desapontamento de Nova Deli, que vê o seu rival ganhar credibilidade na cena mundial.

Para além da irascibilidade de Trump, que leva os Estados a eufemizar as suas críticas (tanto no Sul como no Norte), é o entrelaçamento contraditório de alianças internacionais e regionais da maioria dos seus membros que complica os alinhamentos e limita, ou mesmo compromete, a capacidade dos BRICS de se projetarem como um bloco geopolítico. Esta relativa impotência não condena, no entanto, o grupo à obsolescência. Por um lado, porque não está excluído que as reestruturações provocadas por este novo episódio de unilateralismo trumpiano venham a conduzir, a longo prazo, a um reforço do papel dos BRICS. Por outro lado, porque a coligação tem outros projetos em curso, entre os quais a reforma da governação mundial e a cooperação económica e técnica entre os seus membros, que continuam a ser atuais.

Em última análise, os BRICS constituem um fórum entre outros, que permite aos seus membros coordenarem-se em certas questões e acederem a certos recursos, mas que não responde ao conjunto dos seus interesses estratégicos, num ambiente mundial cada vez mais incerto e fragmentado.


François Polet é doutorado em sociologia e investigador do Centro Tricontinental(CETRI). Artigo publicado no Le Soir. e republicado no CETRI

Termos relacionados: InternacionalBRICS